O acesso ao ensino superior é um dos pilares para o desenvolvimento social e econômico do Brasil. Para muitos jovens, porém, o custo das mensalidades nas instituições privadas se torna um obstáculo quase intransponível. É nesse cenário que o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) surge como uma solução viável, oferecendo crédito educacional com condições diferenciadas.
Neste artigo, vamos explorar o histórico, funcionamento e desafios do Fies, além de apresentar dados recentes e alternativas de financiamento para estudantes brasileiros.
Criado em 1999, o Fies tinha como meta inicial ampliar o número de estudantes de baixa renda no ensino superior privado. Desde então, passou por diversas reestruturações para se adequar às demandas econômicas e orçamentárias do país.
Com o passar dos anos, o programa atingiu mais de 2 milhões de contratos ativos. Entretanto, após mudanças nas regras de acesso em 2014 e a crise econômica subsequente, o número de contratos caiu para menos de 400 mil em 2024.
O principal objetivo do Fies é democratizar o acesso à educação superior sem onerar o estudante durante o curso. As parcelas só começam a ser pagas após a conclusão da graduação e a inserção no mercado de trabalho.
Para concorrer a uma vaga pelo Fies, o estudante deve cumprir requisitos básicos, como ter participado do Enem com pontuação mínima de 450 pontos e renda familiar de até três salários mínimos por pessoa.
O processo seletivo ocorre em duas fases por ano, com inscrições online e possibilidade de escolha de até três cursos. Após a primeira chamada, abre-se etapa para preenchimento de vagas remanescentes.
O modelo de pagamento adotado pelo Fies é inspirado em países como a Austrália, onde o valor da dívida é descontado diretamente da renda do graduado, garantindo flexibilidade financeira e reduzindo inadimplência.
No primeiro semestre de 2025, foram registradas 493.002 inscrições para 67.301 vagas, resultando em mais de 198 mil candidatos únicos. Desses, 50.412 foram pré-selecionados, ocupando cerca de 75% das vagas ofertadas.
Para compreender melhor a distribuição regional dos inscritos e do Fies Social, veja a tabela abaixo:
Os cursos mais procurados foram Medicina, Direito, Psicologia, Pedagogia e Enfermagem, com Medicina liderando a lista de pré-selecionados (6.328).
Em termos demográficos, 58,9% dos beneficiários se declararam pardos, 24,75% brancos, 16,91% pretos e 1,35% amarelos e indígenas. Esse perfil revela o papel do Fies como instrumento de inclusão social.
A modalidade Fies Social reserva metade das vagas para estudantes com renda familiar de até meio salário mínimo por pessoa, desde que inscritos no Cadastro Único do Governo Federal.
Essa vertente torna-se fundamental para reduzir desigualdades regionais e sociais no acesso ao ensino superior.
Apesar de seu alcance, o Fies enfrenta entraves estruturais: a diminuição drástica de vagas e contratos, critérios restritivos tornados ainda mais rígidos após 2014 e a dependência de orçamento federal.
Entre as propostas em debate, está a utilização de recursos do FGTS para pagamento de mensalidades, o que poderia ampliar os recursos disponíveis e facilitar o acesso.
No entanto, especialistas ressaltam que a melhoria da qualidade do ensino médio é imprescindível para que mais jovens cheguem preparados ao ensino superior e possam aproveitar plenamente as oportunidades de financiamento.
Com a retração do Fies, instituições privadas e fintechs ganharam espaço. A Pravaler, por exemplo, já conta com 120 mil alunos ativos e detém 85% do mercado de crédito educacional privado no Brasil.
Essas empresas oferecem planos diferenciados, incluindo pós-graduação, tecnólogos e cursos livres, diversificando as opções de formação e aliviando a pressão sobre o programa público.
Em termos de investimento, o Brasil destina cerca de US$ 3.668 anuais por aluno à educação básica, valor similar ao da Argentina, mas abaixo da média da OCDE.
O orçamento federal para 2024 foi de R$ 90,7 bilhões, com execução de R$ 74 bilhões. É urgente otimizar esses recursos e garantir maior transparência para que o financiamento chegue de fato aos estudantes.
O empréstimo estudantil continua sendo uma das principais portas de entrada para estudantes de baixa renda, mas seu potencial pleno só será alcançado com equilíbrio entre políticas públicas, iniciativas privadas e avanços na qualidade do ensino médio.
Referências